terça-feira, 17 de abril de 2012

Analisando o Desmame

Resumo

A amamentação reflete em geral a harmonia ou desarmonia na relação entre a mãe e o bebê. É uma situação rica em sensações tanto para a mãe quanto para o bebê. Mas à partir de um certo momento é necessário que essa relação incestuosa cesse para que a criança surja como sujeito e se torne mais autônoma. A brincadeira de deixar cair os objetos mostra quando a criança está preparada para o desmame. O desmame é a separação do corpo à corpo entre a mãe e o bebê, ele é simultâneo da divisão interna que institui o inconsciente.



A psicanálise nos diz que a relação que se estabelece entre a criança e a mãe durante o período de amamentação dá sua forma aos relacionamentos futuros e particularmente aos relacionamentos amorosos na idade adulta. Percebemos no entanto que nem sempre essa relação se passa de maneira harmoniosa e o desmame muito freqüentemente é problemático. A desarmonia entre a mãe e o bebê, em certos casos, parece ser tal que vai bem além da discordância fundamental existente entre os humanos, o que nos leva a refletir um pouco sobre o que se passa nesse momento.

Freud nos revelou que o bebê não se separa subjetivamente da mãe quando nasce, embora seu corpo se separe do dela. A verdadeira separação ocorre no momento do desmame. Por isso o bebê precisa continuar muito próximo da mãe até que esteja preparado para essa separação. A amamentação no seio parece ser a forma de cuidados com o recém-nascido que mais se aproxima da continuidade intra-uterina ao mesmo tempo em que prepara progressivamente o bebê para o desmame e para a autonomia.

Durante a vida intrauterina o bebê não sente falta de nada, mas ele já tem uma certa percepção do mundo que o rodeia. Aos dois meses o embrião já reage quando é tocado. O desenvolvimento das papilas gustativas e do olfato se faz logo em seguida mas a alimentação e a oxigenação são contínuas pelo cordão umbilical. Desde os 3 meses de gestação o feto é sensível aos estímulos sonoros. Ele ouve inicialmente os sons graves, tanto mais graves quanto mais jovem é. Ouve a voz da mãe que é mais próxima, e a voz do pai mais distante, além dos outros ruídos do meio. Ouve também o diálogo entre os pais e vive muito em função das emoções da mãe. Desde as primeiras semanas consecutivas à concepção o feto percebe os movimentos da mãe que dão um ritmo à sua vida. No sétimo mês de gestação a criança já pode ver, mas é pouco estimulada pela escuridão do ventre materno.

Algumas dessas percepções continuam depois do nascimento mas com a distinção dos corpos alguns cortes se operam rompendo a continuidade em que a criança vivia. Ela perde seus envoltórios e conhece a sensação de frio na pele que vem lhe provocar um certo mal-estar. Ela começa a sentir fome e sede que antes não sentia. Com poucos dias ela já mostra uma reação aos sabores pela mímica. A respiração entra em jogo o que se acompanha do nascimento da angústia e se manifesta por um grito.

Em seguida, o odor permitirá ao bebê reconhecer e sentir a proximidade de seu pai e sua mãe. Com 3 dias de nascido o bebê já distingue a voz da mãe de outra voz feminina. A voz da mãe estimula nele a atividade de sugar e de mamar. Ele passa também a conhecer a imobilidade externa que lhe dá uma sensação de desamparo. A criança manifesta desde cêdo um grande interesse pelo rosto materno, interesse que estaria na origem das primeiras identificações. Desde a primeira semana de vida, a atividade visual é função do valor que a mãe lhe dá, ou seja desse encontro com o rosto do outro.

Assim se estabelece a relação oral, cuja atividade consiste em mamar, sugar, engolir e morder, através da qual a criança busca restabelecer a completude em que estava no útero. Freud faz uma distinção entre sugar e mamar sendo que a mamada no seio materno é a primeira e mais vital das atividades. A sucção também é procura da satisfação como a mamada, mas somente na fantasia do bebê, o que nos mostra que ele procura algo mais além do que simplesmente saciar a fome.

O movimento de sucção que freqüentemente o bebê faz mesmo sem estar mamando, é também sinal de que está interessado por outras coisas no mundo que o rodeia. Ele engole, não somente o alimento, mas também o olhar, a voz e o calor da mãe. Ele é alimentado ao mesmo tempo pela boca, pelos ouvidos, pelos olhos, pela pele. Isso quer dizer que todas essas percepções passam a fazer parte dele, embora algumas ele possa rejeitar, o que ele manifesta por exemplo quando vomita o leite. A mordida surge em seguida com o nascimento dos dentes, quando aparece combinada à libido uma pulsão agressiva e destrutiva. É freqüentemente um momento em que as mães decidem desmamar o filho, muito mais como punição pela mordida que por um desejo propriamente dito de desmamar.

O objeto que satisfaz ao bebê, o seio, é primeiramente percebido como fazendo parte dele mesmo, e o desmame será para ele como perder uma parte de si mesmo. Daí a importância de que seja feito progressivamente e que a relação entre ele e a mãe se passe também pela fala e pelo olhar. Assim a criança se prepara para perder o seio, na medida em que este poderá ser substituído pela voz, pela palavra e pelo olhar. É também importante que nesse momento seja sempre o mesmo rosto que cuide dele, a mesma voz, o mesmo olhar, o mesmo cheiro, para que ele possa depois reconhecer a unidade de seu corpo e do de sua mãe.

A amamentação é em si uma situação rica em sensações sexuais, não somente para a criança mas também para a mãe, situação que se apóia num reflexo fisiológico. A sucção do seio provoca a contração do músculo uterino, o que se acompanha de excitação sexual. A erogeneidade dos mamilos também é fonte de sensações sexuais para a mãe. É muito importante que não somente a criança, mas que também a mãe tenha prazer com a amamentação. Algumas mães ficam muito inquietas com isso, o que pode provocar dificuldades na amamentação e até mesmo inibição da lactação. Outras vezes também, sem se dar conta, algumas mães se consolam com o bebê de suas frustrações eróticas, ficam muito coladas com ele, dando-lhe às vezes o lugar do próprio marido na cama. Tudo isso também influencia na harmonia ou desarmonia da relação entre a mãe e o bebê.

Todos os cuidados dados pela mãe induzem a sexualização precoce da criança, e é normal que seja assim, sendo a amamentação o tempo permitido à criança para permanecer nessa relação incestuosa. Mas essa relação deve ser proibida a partir de um determinado momento e submetida à castração para que a criança possa justamente ter acesso ao simbólico e à linguagem. O desmame é a interdição dessa relação com o seio. É frequentemente um traumatismo que provoca tristeza no bebê e deixa nele traços permanentes. É no momento do desmame que a criança se separa da mãe subjetivamente relembrando o nascimento. Esse momento é doloroso também para a mãe, mas é indispensável para a estruturação da criança. A separação do desmame é na realidade o reflexo de uma divisão interna na própria criança que funda o inconsciente e lhe faz entrar na linguagem, tornar-se falante. A criança mostra que está pronta para isso quando começa a brincar de deixar cair os objetos e esperar que retornem, o que acontece entre 6 e 18 meses. Ao mesmo tempo o intervalo entre as mamadas aumenta, algumas vão sendo suprimidas.

Ela pode suportar um tempo cada vez maior de ausência do seio. A brincadeira de deixar cair já é de certa forma a representação do desmame. Isso acontece porque a criança percebe que não satisfaz inteiramente a mãe, pois a mãe se interessa pelo pai. Com o desmame, a relação que era dual passa a ser ternária. E a criança que até então se percebia numa espécie de indissociação com a mãe, e que ainda não tinha noção da unidade do corpo da mãe, passa a percebê-la como objeto inteiro, ou seja, a voz, o olhar, o rosto, o cheiro, o seio, pertencem todos à uma mesma pessoa e desse conjunto mãe, ela não faz parte. Ela como se deixa então cair da mãe como deixa cair o seio e deixa cair um brinquedo, ao mesmo tempo em que sua autonomia muscular aumenta. Identificando-se com essa parte perdida de si mesma ela surge então como sujeito desejante. A linguagem se desenvolve, ela passa a se interessar por outros alimentos, outras pessoas, outros objetos, outras percepções.


Autora: 

Telma C. N. Queiroz
Psiquiatra, psicanalista, professora do Centro de Ciências da Saúde da UFPb e doutora em psicologia pela Universidade de Paris 13.

Bibliografia:


FREUD Sigmund: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) in __________: Obras psicológicas completas. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1989, volume VII, pp.117-228. Edição Standard Brasileira.

FREUD Sigmund: Inibições, sintomas e ansiedade (1925-26) in ____________: Obras psicológicas completas. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976, Volume XX, pp. 93-199. Edição Standard Brasileira.

HERBINET Etienne e BUSNEL Marie-Claire (direction): L’aube des sens. Les Cahiers du nouveau-né nº 5. Paris: Editions Stock, 1982, 414p.
LACAN Jacques: Le Séminaire – livre IV – La Relation d’objet. Paris : Editions du Seuil, septembre 1986, 379p.

LACAN Jacques: L’Angoisse. Publication hors commerce.
Document interne à l’Association Freudienne et destiné à ses membres.

LANOUZIÈRE Jacqueline: Histoire sécrète de la séduction sous le règne de Freud. Paris : P.U.F. 1991, 176p.

WINNICOTT D. W.: L’enfant et sa famille.
Paris: Petite Bibliothèque Payot, 1981, 214p.
Publicado em 18/04/2007

Fonte: Site Psicopedagogia Brasil

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